segunda-feira, 20 de junho de 2011

Elmano Santos 25 anos depois

Jornal da Madeira - Fica a mágoa de não ter atingido a internacionalização?
Elmano Santos - Não. Entrei para o grupo restrito de árbitros que estiveram mais de 10 anos na 1.ª Divisão e que arbitraram mais de 100 jogos nesta categoria. Alguns internacionais nem isso fizeram apesar de pertencerem a um grupo muito mais restrito.

JM - O que lhe deu a arbitragem?
ES - Ensinou-me a respeitar valores éticos e morais fundamentais , como a lealdade, o respeito pelos outros e a justiça. Ensinou-me também a lidar com a pressão, com a competitividade e com aqueles que apenas estão preocupados com o seu umbigo. Para além disso, proporcionou-me conhecer pessoas e locais que nunca teria procurado. Na parte financeira, não escondo que ajudou, nomeadamente a proporcionar momentos de lazer à minha família, ajudando a compensar outros menos agradáveis por que passaram à custa desta minha actividade.

JM - Perspectivou, no início de carreira, chegar até onde chegou?
ES - Sim. Quando me tornei sénior não consegui ficar no plantel do Nacional e fui jogar para o Ribeira Brava e depois para o Choupana. Aí senti que não iria sair do Regional e então decidi continuar a minha carreira académica. Como já tinha o gosto pela arbitragem pensei que aí poderia chegar onde era praticamente impossível como praticante. Fui traçando objectivos que fui atingindo e só falhou a internacionalização porque a subida à 1.ª Divisão deu-se com 3 anos de atraso.

JM - O último jogo...
ES - Fiz tudo como costumava fazer. Senti por um lado um misto de satisfação por terminar uma carreira ao mais alto nível, ainda por cima não sendo internacional e por outro alguma nostalgia não conseguindo evitar alguns pensamentos durante o jogo de que não voltaria a viver aquelas emoções da mesma forma. Mas para me sentir melhor pensei nas situações negativas que não voltariam a repetir-se. Foi um mecanismo de defesa.

JM - Chegou ao final de algum jogo com a nítida sensação que teria errado?
ES - Em muitos. Mesmo nos jogos em que não temos acesso à TV. Não me lembro de ter feito nenhum jogo em que tenha saído 100% satisfeito. Claro que quando temos a sensação que erramos num lance decisivo ficamos mais frustrados, tristes e deprimidos. Se temos a certeza através da TV, pior ainda. Se for em faltas a meio campo, lançamentos laterais… ou outras coisas que não decidam resultados, embora devamos procurar sempre a excelência e a perfeição, saímos satisfeitos e com a noção de dever cumprido.

JM - E durante o jogo? Após decidir, nunca se arrependeu de imediato?
ES - Arrepender não, porque sempre o fiz com a melhor das intenções ciente que era a decisão mais correcta. Mas ficar com a sensação de dúvida e com a noção que podia ter feito algo mais para ter a certeza da decisão, aconteceu muitas vezes.

JM - Existe "lei da compensação" ?
ES - De uma forma consciente e intencional não. Mas se o árbitro não se preparar convenientemente pode ser levado por essa tentação. Hoje em dia, principalmente nos jogos transmitidos na TV o feed-back da decisão chega ao árbitro rapidamente. Às vezes nem é preciso aguardar pelo intervalo. A informação circula pelos bancos de suplentes, chega ao terreno de jogo e o árbitro apercebe-se. Se não for capaz de fazer um “reset” do que se passou pode ser levado a errar novamente.

JM - Consciência tranquila no rescaldo destes 25 anos, ou existe algum erro de ajuizamento que o tenha marcado?
ES - Nenhuma decisão por mais errada que tenha sido me marcou ou incomoda actualmente porque sempre agi de boa fé dentro dos mais elementares princípios da justiça. Naturalmente que quando as coisas não corriam bem, sentia um certo incómodo, mas nunca deixei de dormir descansado por isso.

JM - Pressões... ameaças... Existem?
ES - Passei por poucas situações dessas e nunca me senti verdadeiramente ameaçado. As pressões existem, certamente, e os árbitros têm que estar preparados para elas. Tanto podem vir do público, dos jogadores, dos treinadores, dos dirigentes, da comunicação social, ou ser inerentes à própria competição (resultado, classificações…). Os árbitros têm que transformar essa pressão num factor positivo para se motivarem e desenvolverem um trabalho de qualidade, isento e imparcial.

JM - O conteúdo do "apito dourado" surpreendeu-o?
ES - Veio confirmar algumas situações que se ouviam nos bastidores e que eu não queria acreditar. Fui ingénuo em alguns momentos mas isso só traz mais valor à minha carreira por nunca ter tido a tentação de enveredar por algumas situações como as que foram reveladas nesse processo em troca de promoções ou outra coisa qualquer.

JM - Ficou sempre a sensação que era um alvo fácil de "bater" por parte da comunicação social do continente...
ES - Senti essa discriminação. Por sempre ter mantido um distanciamento em relação a esses profissionais talvez tenha sido prejudicado em algumas apreciações, afectando a minha imagem enquanto árbitro junto da opinião pública. Alguns jornalistas exigem aos árbitros competências que eles não dominam nem são capazes de exibir ao nível das atitudes e valores (rigor, isenção, capacidade de lidar com a pressão…)

JM - Desiludido por não ter sido o árbitro da final da Taça de Portugal?
ES - Esse era um dos meus objectivos traçados nos últimos anos e no início desta época em especial. O facto de não ser internacional e principalmente a forma menos conseguida como foi decorrendo esta época levaram-me a aceitar essa decisão do Conselho de Arbitragem como natural e a ficar contente por ter participado na final como 4.º árbitro.


JM - Pode-se saber agora quais são as suas preferências clubísticas?
ES - Não acho pertinente revelá-las agora porque abandono a carreira por duas ordens de razões: ao longo dos anos fui aprendendo a desligar-me dessas preferências; em Portugal as pessoas não estão preparadas para aceitar que alguém com determinada preferência ou filiação e com funções de decisão, seja capaz de exercer a sua missão com isenção e imparcialidade.

Benfica-Boavista complicado...


Em relação ao desafio mais complicado com que se deparou na sua carreira, Elmano Santos não tem dúvidas: «Benfica - Boavista de 2004 com vitória de 3-2 para o Benfica e duas expulsões para o Boavista. Jogo com muitas incidências técnicas e disciplinares acabando com confrontações no final do jogo. Só algum tempo depois com a revelação de algumas escutas do “Apito Dourado” percebemos que não nos tínhamos preparado convenientemente para o jogo pois existiram algumas situações por trás do mesmo que nós desconhecíamos à data do jogo. Se estivéssemos na posse de todos os dados poderíamos ter feito uma preparação diferente para o mesmo, não só a nível técnico como psicológico.

Balanço positivo

É o próprio Elmano Santos quem apresenta os seus números, na forma de um balanço que considera «extremamente positivo. Atingi o que nenhum árbitro madeirense ainda o fez e que poucos desportistas na RAM lograram atingir. Foram 23 anos a fazer jogos a nível nacional, 12 deles na 1ª Divisão, primeiro como fiscal de linha e a partir de 1992 como árbitro. Participei em aproximadamente 2000 jogos oficiais, 275 deles nas competições profissionais (114 na 1.ª Divisão). Integrado várias vezes no top ten da arbitragem portuguesa, fui 4.º e 5.º classificado. Faltou ser internacional apesar de ter estado em mais de 20 jogos internacionais como 4.º árbitro, incluindo na Champions League e em torneios internacionais. Orgulho-me naturalmente da minha carreira e posso dizer que valeu a pena esta minha opção pela arbitragem».
Diz ainda que fez «mais amigos externos à arbitragem nos locais por onde fui passando à custa desta actividade, que no interior da mesma». Quanto a inimigos, não os tem, mas «algumas pessoas decepcionaram-me ao longo deste percurso, principalmente aqueles que trabalhando mais perto de nós não olhavam a meios para atingir os seus fins, promovendo a intriga e a maledicência».

Quase nunca vimos Elmano Santos dar um sorriso durante os jogos e, pelo contrário, apresentava sempre um ar muito sério e pouco dado a confianças. Defeito? Feitio? Estratégia?
«Defeito não será. O papel que desempenhamos não se coaduna com grandes manifestações de alegria, regozijo ou euforia, pelo menos de forma pública. Penso que seria mais um misto de feitio e estratégia. No entanto, reconheço que em alguns momentos poderia ter transmitido um pouco mais de alegria nas minhas prestações. O facto é que, apesar disso, mantinha um bom relacionamento com os diferentes intervenientes, reconhecido pelos próprios, mesmo por aqueles considerados de mais difícil trato».

Continuar na arbitragem

E o futuro? Elmano Santos releva que «vou ter mais tempo para me dedicar à minha actividade profissional, à família e aos amigos, não só aos fins-de-semana mas também durante a semana. Nunca fui um árbitro de fim-de-semana caso contrário não teria chegado onde cheguei. Se não surgir nenhuma função ligada ao desporto ou à arbitragem que me agrade irei aproveitar o tempo livre para realizar actividades que gosto e deixei de as fazer devido à forma como me dediquei a esta causa. Mas confesso que gostaria de ficar de algum modo ligado à arbitragem». Elmano Santos diz que «todos estes anos ligado à função quer como árbitro ou dirigente da APAF e da ATARAM, quer como formador nesta área de árbitros e treinadores me dão alguma experiência e competência para desenvolver actividades relacionadas com o sector. Se os responsáveis pelas diferentes organizações me reconhecerem competências para continuar a trabalhar em benefício da arbitragem, com projectos credíveis e ambiciosos que vão de encontro às minhas expectativas, poderão contar comigo seja em que função for».

Avaliação transparente mas obsoleta

Confrontamos Elmano Santos com os métodos de avaliação aos árbitros. A questão é "como é possível notórias boas arbitragens serem brindadas com notas menos boas e outras com erros evidentes com notas altas?", apoiada ainda no reforço se "estaria errado o método de avaliação ao dispor dos observadores? A resposta do agora ex-árbitro é pormenorizada: «Só é possível porque este método de avaliação apesar de ser transparente está obsoleto. Os árbitros têm que ser avaliados em igualdade de circunstâncias por observadores competentes que conheçam minimamente a competição em que estão a trabalhar. Se um observador recorre à TV para classificar um determinado árbitro tem que fazê-lo sempre e todos têm que utilizar a mesma estratégia. Não se pode avaliar árbitros pela TV e outros à vista desarmada sabendo que alguns fazem 12 a 15 jogos por época na televisão e outros 1 ou 2 e no final todos entram na mesma classificação. Só em Portugal é que árbitros internacionais que abandonam a carreira ou observadores reconhecidos pela FIFA / UEFA não podem observar e classificar árbitros nos patamares mais elevados. Depois há ainda o problema da classificação dos observadores. A maioria deles está mais preocupada com a sua carreira e classificação do que em avaliar bem um árbitro. Por outro lado, não se entende como é que um árbitro pode estar ao sabor da vontade dos clubes em recorrerem ou não das suas avaliações. Há clubes que vêm para a comunicação social reclamar de notas elevadas em arbitragens negativas mas formalmente não o fazem na Liga e a nota não se altera. Outros clubes acabam de reclamar das avaliações e as notas dos árbitros baixam. Mesmo que haja razão neste último caso, não coloca toda a gente em igualdade de circunstâncias. Existem alterações regulamentares a este nível que têm de ser feitas, no sentido de tornar este processo mais ágil e justo».

Líder é o responsável

Esta época - e também na anterior - foi notório que muitos dos erros que lhe foram apontados eram da responsabilidade dos árbitros auxiliares. Confrontamos Elmano Santos se não seria injusto não existir uma abordagem mais individualizada nessas críticas. O nosso entrevistado considera que não, e justifica: «A arbitragem é uma actividade que exige muito trabalho de equipa. E o principal responsável terá que ser sempre o seu líder. Se não tive a melhor ajuda em alguns jogos foi porque não soube nem pude liderar da melhor forma o processo ao nível da preparação para os jogos uma vez que ao nível da escolha dos assistentes pouca influência tinha. Quanto a algumas críticas, sejam elas individualizadas ou não, quero acreditar que elas só existem na maioria das vezes porque quem critica não conhece minimamente a função de arbitrar embora até possa ser um profundo conhecedor das leis de jogo. Só que arbitrar na TV é uma coisa e no terreno de jogo é outra completamente diferente: a velocidade dos lances, o número de vezes que se pode observar, os ângulos…».

In: Jornal da Madeira

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